As guerras sempre vão ser parte da história humana, e com ela nós temos os guerreiros, sua grande maioria foi apenas bucha de canhão, mas alguns poucos conseguiram se sobressair e viraram lendas, alguns porém já foram esquecidos pelas pessoas.
Confira nessa matéria a história de mais alguns dos maiores guerreiros que já viveram. E se você quiser conhecer os maiores guerreiros animais que já viveram (sim, estamos falando de cães, macacos, pombos e até elefantes) clique aqui agora mesmo.
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| Domínio público |
Vamos começar com uma pessoa que não foi apenas um ótimo guerreiro como também um símbolo histórico da comunidade LGBT.
Assim como muitos nomes dessas listas você provavelmente nunca ouviu falar do francês Chevalier d'Éon, nem mesmo a comunidade LGBT costuma se lembrar dele, mesmo assim sua história única merece ser recontada.
Nascido em 5 de outubro de 1728 Charles-Geneviève-Louis-Auguste-André-Timothée d'Éon de Beaumont (sim, esse era o seu nome de verdade) foi um dos maiores soldados e espiões da França de sua época... e ele também era trans.
Chevalier nasceu em uma família nobre, mas pobre, mesmo assim seus pais tinham bons empregos para a época e conexões com a realeza e o exército, o garoto era um ótimo estudante e se formou ganhando um diploma em Lei Civil e Direito Canónico, passou então a trabalhar para o departamento fiscal, mas sua vida calma não iria durar muito.
Em 1756, d'Éon juntou-se à rede super-secreta de espiões chamada Segredo do Rei, empregados pelo rei Luís XV sem o conhecimento do governo. Ele então foi mandado em uma missão secreta à Rússia para encontrar a imperatriz Elizabeth e conspirar com a facção pró-francesa contra a monarquia de Habsburgo.
Naquela época, ingleses e franceses estavam em desacordo, e os ingleses estavam tentando negar o acesso da França à imperatriz, permitindo apenas que mulheres e crianças atravessassem a fronteira para a Rússia. D'Éon já havia percebido que ele tinha traços andrógenos, como se isso não bastasse ele também era um ótimo mímico, ele não teve dúvidas e se travestiu de mulher para não ser executado pelos ingleses, ele virou uma mulher de classe chamada Lea de Beaumont, seu disfarce era tão bom que ele passou a servir como dama de honra à Imperatriz.
D'Éon foi excepcional em sua missão, seu maneirismo perfeito fez com que seu disfarce durasse o suficiente até que ele retornou à França em outubro de 1760 e recebeu uma pensão de 2.000 livres como recompensa pelo seu serviço na Rússia. Mas ele ainda não estava satisfeito, em maio de 1761, d'Éon tornou-se capitão de dragões (um tipo de cavalaria) sob o marechal de Broglie e lutou nos últimos estágios da Guerra dos Sete Anos. D'Éon serviu na Batalha de Villinghausen em julho de 1761 mas foi ferido em Ultrop. Depois que a Imperatriz Isabel morreu em janeiro de 1762, d'Éon foi considerado para servir na Rússia, mas em vez disso foi nomeado secretário do duque de Nivernais, premiado com 1.000 libras, e enviado a Londres para redigir o tratado de paz que encerrou formalmente a Guerra dos Sete Anos. O tratado foi assinado em Paris em 10 de fevereiro de 1763 e d'Éon recebeu mais 6.000 libras e recebeu a Ordem de Saint-Louis em 30 de março de 1763, tornando-se o Chevalier (Cavaleiro) d'Éon.
Ainda vivendo como homem ele continuou sua vida de espionagem enquanto trabalhava como embaixador, ele fazia amizade com a nobreza inglesa ao lhe dar vinhos de sua própria criação, e conseguia informações que paravam invasões antes mesmo delas começarem. Mas sua vida boa não durou muito.
Com a chegada do novo embaixador, o conde de Guerchy em outubro de 1763, d'Éon foi rebaixado ao posto de secretário e se sentiu humilhado na frente de seus amigos da nobreza, ele então decidiu sair da França mesmo desobedecendo ordens.
D'Éon era um espião que sabia demais, assim que ele saiu da França o governo parou de lhe pagar sua pensão, eles tentaram extraditar ele, com medo que ele revelasse o que ele sabia sobre os crimes do governo francês. D'Éon até processou Guerchy por tentativa de homicídio por envenenamento. Com os segredos da monarquia em mãos, d'Éon manteve o rei sob controle.
D'Éon não ofereceu nenhuma defesa quando Guerchy processou ele por difamação, então foi declarado um fora da lei e se escondeu. No entanto sua personalidade amigável assegurou a simpatia do público britânico: a multidão zombou de Guerchy em público e atirou pedras em sua residência. D'Éon então escreveu um livro sobre administração pública, "Les Loisirs du Chevalier d'Éon", publicado em treze volumes em Amsterdã em 1774.
Guerchy foi chamado de volta à França e, em julho de 1766, Luís XV concedeu a d'Eon uma pensão (possivelmente um pagamento para assegurar o seu silêncio) e uma anuidade de 12.000 euros, mas recusou a exigência de mais de 100.000 libras para pagar a pensão de d'Éon que tinha dívidas extensas.
D'Éon continuou a trabalhar como espião, mas viveu no exílio político em Londres. A posse das cartas secretas do rei fornecia proteção contra novas ações, mas d'Éon não pôde retornar à França.
Apesar do fato de que d'Éon usava habitualmente um uniforme militar de dragão, circulavam rumores em Londres de que ele era na verdade uma mulher se passando por homem. Uma aposta foi iniciada na Bolsa de Valores de Londres sobre o verdadeiro sexo do cavaleiro. D'Éon até foi convidado a participar, mas recusou, dizendo que um exame seria desonroso, qualquer que fosse o resultado. Depois de um ano sem progresso, a aposta foi abandonada. Após a morte de Luís XV em 1774, seu exílio acabou mas ele teve de devolver todos os documentos que incriminavam a realeza.
Ao voltar para seu país d'Éon passou a viver como mulher e mandou que o governo o reconhecesse como tal. Ele até mesmo disse que ele tinha nascido mulher, o Rei aceitou seu pedido e d'Éon foi um dos primeiros transgêneros da história moderna.
A pensão concedida por Luís XV foi encerrada pela Revolução Francesa e d'Éon teve de vender seus bens pessoais para pagar as contas, incluindo livros, joias e chapas. As propriedades da família em Tonnerre foram confiscadas pelo governo revolucionário. Em 1792, d'Éon enviou uma carta à Assembléia Nacional francesa oferecendo-se para liderar uma divisão de soldados do sexo feminino contra os Habsburgos, mas a oferta foi rejeitada, afinal o pensamento da época era que mulheres não podiam lutar tão bem como homens.
Além de soldado e espião Chevalier era um ótimo esgrimista, ele derrotou diversos oponentes em duelos, muitas vezes (para o desespero de seus inimigos) vestido como uma mulher. A humilhação de perder era ruim, mas perder para uma mulher era demais.
D'Éon participou de torneios de esgrima até ser gravemente ferido em Southampton em 1796. Os últimos anos de d'Éon foram gastos com uma viúva, a Sra. Cole. Em 1804, ele (agora oficialmente ela) foi enviado para uma prisão de devedores por cinco meses e assinou um contrato para uma biografia, a ser escrita por Thomas William Plummer, mas que nunca foi publicada. D'Éon ficou paralisado após uma queda e passou os últimos quatro anos de cama, morrendo na pobreza em Londres em 21 de maio de 1810, aos 81 anos de idade.
Após a sua morte veio o fim do mistério de sua sexualidade, o cirurgião que examinou o corpo de d'Éon atestou em seu certificado post-mortem que o Chevalier tinha "órgãos masculinos em todos os aspectos perfeitamente formados", enquanto ao mesmo tempo exibia características femininas. Algumas características descritas no certificado foram "redondeza incomum na formação dos membros", bem como "mama notavelmente cheia".
Seu legado durou pouco tempo, sua história acabou sendo esquecida, mas Chevalier d'Éon foi realmente uma personalidade histórica única, livros foram escritos sobre ele, filmes e peças de teatro também, ele até apareceu no jogo Assassins Creed Unity.